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Entrevista a Ivo Rocha


Olá a todos!

Hoje tenho o prazer de vos apresentar uma pessoa que se cruzou pelo meu percurso académico. É com muita alegria que partilho a entrevista do Ivo Rocha, atleta de Natação Adaptada.


1- Fala um pouco sobre ti.


Sou o Ivo Rocha e tenho 31 anos. Estou há 11 anos ligado à natação, inicialmente apenas como nadador do clube Feira Viva Natação Adaptada de Santa Maria da Feira e atualmente como um dos treinadores adjuntos nesse mesmo clube. Também estou ligado ao ensino da natação no HMC Sports sendo monitor da modalidade nas piscinas municipais.

Nos tempos livres gosto de ver desporto, viajar e descobrir sítios novos, fazer praia, ver filmes e séries, ou simplesmente descansar.


2- Quais são os teus objetivos para o futuro?


Para o futuro desejo continuar a construir uma carreira no desporto, seja como atleta e poder representar mais vezes a Seleção Nacional (na natação e noutros desportos que possa vir a fazer), seja como treinador. Fazer vida no desporto é o meu sonho de criança e espero que se prolongue enquanto for vivo.

Quero também construir família, ter filhos e ser cada vez mais feliz.

Uma boa carreira no desporto e uma família feliz é o suficiente para eu me sentir realizado.


3- Já nasceste com a deficiência motora? Se não, qual o motivo para hoje te encontrares em cadeira de rodas?


Eu nasci como uma criança normal e até aos 18 anos fui uma pessoa como tantas outras, adorava jogar à bola, andar de bicicleta e muitas outras atividades que hoje não posso fazer. Um acidente deixou-me várias mazelas físicas, a mais grave uma lesão medular na Vértebra D8 que me impede de ter movimentos voluntários nos membros inferiores.


4- Como foi o teu processo de adaptação ao uso de cadeira de rodas?


Na altura achava que estava a ser fácil e as pessoas à minha volta geralmente diziam que estava a lidar muito bem com a situação. Hoje já penso que se calhar não foi tão fácil como julgava ser. Mas independentemente das dificuldades e da frustração de saber que tinha perdido parte das minhas faculdades físicas, nunca deixei de procurar mais e melhor para mim. Fazia imensas horas de fisioterapia diárias para ganhar independência, saía com os meus amigos e procurava me divertir. A vontade de ser feliz e aproveitar a minha vida e juventude foram cruciais para ir atrás dos meus sonhos e ser a pessoa feliz e realizada que sou hoje. A cadeira de rodas foi um choque no início, mas à medida que o tempo foi passando e eu fui ganhando autonomia e independência, deixou de ser um pretexto para eu me sentir menos que outra pessoa e me afastar das pessoas ou não aproveitar a vida que estava ao meu alcance.


5- Quais são as características que na tua opinião são importantes a ter consideração na escolha de uma cadeira?


Ao início usava uma cadeira de rodas muito pesada e durante algum tempo foi assim. Depois de sair do hospital comecei a fazer fisioterapia com pessoas que já se deslocavam em cadeira de rodas há mais tempo que eu e fui colhendo os seus conselhos. Quando tirei a carta de condução tornou-se fundamental ter uma cadeira mais leve e fácil de desmontar para que fosse possível ir a qualquer lado sozinho.


6- Como é Portugal em termos de acessibilidades?

Acho que tem havido evolução em termos de acessibilidades, mas há ainda um longo caminho a percorrer. Há imensos sítios, muitos deles públicos, com acesso a cadeiras inexistente. Muitos sítios em que o acesso é feito exclusivamente por escadas ou sem casa de banho acessível. Muitas vezes encontramos também locais que estão falsamente acessíveis, com rampas depois de degraus ou rampas tão inclinadas que é impossível subir. Os próprios passeios muitas vezes têm rampas ou têm postes no meio.


7- Deslocaste autonomamente ou em determinadas situações necessitas de ajuda de pessoas?


Faço praticamente tudo sozinho, tenho uma rotina diária normal e “solitária”. Infelizmente há alguns sítios com acesso mais difícil e se for o caso tenho que pedir a alguém para aceder por mim.


8- Tiveste algum tipo de acompanhamento terapêutico para aprender a utilizar a cadeira/transferências/etc?


Durante os 2 meses em que estive internado no hospital, parte da fisioterapia consistia nessas atividades de utilizar a cadeira e fazer transferências. Depois que saí do hospital essa realidade passou a ser uma rotina a toda a hora e com o tempo tornou-se mais fácil.


9- Tiveste de alterar a casa/ mudar de casa após começares a utilizar cadeira de rodas?


Quando tudo aconteceu a casa dos meus pais não estava minimamente preparada. Tivemos de fazer obras no passeio pois era muito inclinado, obras no WC porque a disposição dos móveis fazia com que fosse pouco amplo. Acho que foram as principais adaptações. Atualmente vivo com a minha namorada num apartamento, tivemos que fazer obras no WC e ter o cuidado prévio que escolher um prédio com bons acessos, elevador (no caso temos 2 e como é frequente avarias é bom ter mais que um), e interior com divisões espaçosas.


10- Sentes que já foste vítima de preconceito? Queres contar alguma experiência?


É normal sermos alvos de preconceito e sinceramente o melhor é não darmos muita importância a isso porque é algo muito frequente até. A maioria das vezes não basta fazer as coisas bem para sermos reconhecidos como bons, temos de ir além disso, ser muito bons para que nos achem razoáveis. Posso dar o exemplo da natação, para ter sucesso enquanto atleta tenho de fazer imensos treinos semanais, não é só um treino por dia, e as pessoas ficam pasmadas só de saberem que treino de 2a a sábado. No trabalho a mesma coisa, quando me vêm numa cadeira de rodas muitas vezes acham que vou ser um profissional mais limitado apesar de todo o conhecimento ou experiência que possa ter. Cabe a nós lidarmos com alguma naturalidade e fazer os possíveis para mostrarmos ás pessoas que têm essa mentalidade, que estão erradas. Com o tempo fica fácil provar que não é a cadeira que define a nossa qualidade, mas sim o conhecimento que temos e se somos ou não capazes de o transmitir.


11- O que aconselham as pessoas a NÃO fazer quando se cruzam com alguém em cadeira de rodas?


Não serem demasiado insistentes se o cadeirante disser que não precisa de ajuda. Não invadir o seu espaço e intimidade se o cadeirante não estiver disposto a dar a conhecer o seu “eu”. De resto não somos mais que pessoas normais.


12- Fala um pouco sobre o teu percurso desportivo.


Eu entrei na natação aos 10anos, na altura não era com o intuito de competir, então fazia apenas 2 aulas semanais de 45minutos por indicação médica. Caminhava com os pés orientados para dentro e então tropeçava muitas vezes em mim, caía e magoava-me. Fiz natação dos 10 aos 16 anos e o certo é que ajudou.

Havia de regressar aos 20 anos, depois de já ter tido o acidente e com um pensamento diferente pois queria competir. No hospital S. Sebastião os médicos e fisioterapeutas aconselharam-me a entrar num desporto como fundamental para a minha reabilitação física e psicológica. A natação deveu-se a ser um desporto que já tinha praticado, por existir no concelho, por ser benéfico à espasticidade que adquiri após o acidente e porque enquanto aluno cruzei-me com um professor que é o fundador do clube do qual faço parte e me incentivou a experimentar.


13- A tua nutrição é diferente de uma pessoa normal?


Sim é diferente. A maior parte da minha alimentação é feita com alimentos e produtos como qualquer outra pessoa. Não tenho grandes restrições no meu plano alimentar por isso vou comendo de tudo. Mas sei que uma vez entre outra não podem ser rotina então evito ao máximo gorduras, refrigerantes e outras coisas que fazem mal. Para mim não é difícil pois sempre fui uma pessoa que gostava de sopa, saladas e comida saudável. Além disso tenho alguns suplementos no meu plano alimentar para ajudar a recuperar fisicamente e para aguentar a carga de treinos que tenho.


14- Já viajaste para fora do país? Fala um pouco sobre as acessibilidades.


Pela seleção já tive a oportunidade de ir a Dublin, Glasgow, Londres, Eidhoven e Amesterdão. Já viajei também por alguns lugares na Península Ibérica.

Acho que quanto mais pequeno é o lugar menos acessibilidades temos. E acho que os locais destinados ao turismo têm geralmente mais acessibilidade que os outros. Nos países que tenho ido por representação da seleção não tenho encontrado obstáculos nas ruas ou edifícios.

Em Portugal, nas grandes cidades, muitas vezes falta lugares de estacionamento de mobilidade reduzida que são fundamentais para a mobilidade das cadeiras de rodas.

Em relação às viagens de avião é semelhante a uma pessoa comum, mas quando informamos a companhia de viagem devemos saber as dimensões e peso da cadeira e pedir o serviço MyWay para que estejam preparados com uma cadeira com pequenas dimensões que nos levam desde a manga do avião ao nosso lugar.


15- Quais são as adaptações que podemos encontrar num carro? Qual a maior dificuldade a conduzir?


As adaptações do meu carro são uma manete que funciona como um acelerador quando puxada e como travão quando empurrada. Tem também um sistema de mudanças no volante (+1 mudança no lado direito e –1 mudança no lado esquerdo) que me permite ter um maior controlo sobre o carro (muitos cadeirantes não têm esta adaptação ou não a usam). É fundamental que o carro tenha caixa automática.

Não apresenta dificuldade acrescida, apenas adaptação.


16- Que conselho darias a alguém que acabou de descobrir que vai passar o resto da sua vida em cadeira de rodas? Como é que um familiar/amigo deve agir nesta fase inicial.


Aconselho a aproveitar tudo o que existe de bom na vida. Aconselho a procurar adaptar-se o mais rápido possível e a procurar ser independente o mais rápido possível. Aconselho também a não se isolar e não deixar de procurar fazer as coisas, frequentar os lugares e conviver com as pessoas à imagem do que antes faziam. A cadeira de rodas requer adaptação, não o corte com o passado e tudo o que o rodeia.

Durante a minha adaptação tive o apoio de imensos amigos e isso foi fundamental para a minha rápida integração e sou extremamente grato por isso, tudo o que posso apelar é que outras pessoas façam o mesmo e ajudem quem está à sua volta. Acho fundamental que não se dramatize o acontecimento e que não sintam pena do seu familiar/amigo.


Obrigada Ivo pela tua disponibilidade para a entrevista, desejámos-te um futuro cheio de sucesso!


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