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Importância dos Elementos Psicomotores no Desenvolvimento da Autonomia- Prof. Natália Oliveira

Olá a todos! Chegou a hora de partilhar com vocês mais uma excelente entrevista, desta vez com a Professora Natália. Começámos a seguir o trabalho da Natália no Instagram (@prof_natoliveira) e ficámos encantadas! Assim, é com muita alegria que podemos também partilhar a sua entrevista com todos vocês!


1- Fale-nos um pouco sobre si. Como chegou à Psicomotricidade?

Iniciei o curso de Licenciatura em Educação Física no ano de 2014, e ao estudar a disciplina de Desenvolvimento Motor comecei-me interessar pela Educação Infantil.

Ao estagiar na Educação Infantil fiquei tão apaixonada que publiquei o meu primeiro artigo científico sobre a importância dos Jogos na Infância. Em 2018, ano da minha formatura, tive a oportunidade de trabalhar como monitora numa Colónia de Férias numa empresa onde a maioria das crianças eram atípicas, posteriormente fui contratada e continuei o meu trabalho com estimulação motora. Comecei minha pós –graduação em Desenvolvimento, Aprendizagem e Controlo Motor no final de 2018, e desde então trabalho na área de psicomotricidade com crianças com Transtorno do Espectro Autista.


2- Faça uma introdução deste tema. Qual a importância do mesmo?

A preocupação da família em alfabetizar e oferecer formação acadêmica para os seus filhos começa desde que o bebé ganha habilidades básicas motoras e de linguagem. Os esforços para tal se intensificam na Educação Infantil, fase de ensino em que algumas crianças apresentam dificuldades no processo de aquisição de escrita e leitura. É nesse momento em que aspetos motores ganham destaque na investigação da origem das dificuldades.

De fato, estimular cada elemento é indispensável para o rendimento escolar em qualquer fase de ensino, no entanto, não é só na área académica que os mesmos servem da base o desenvolvimento da criança.

No cenário familiar atual, onde os pais trabalham fora e ficam por muitas horas longe dos seus filhos, as crianças necessitam adquirir autonomia e independência muito cedo. Uma crianças mais autónoma é menos vulnerável a perigos e abusos, nesse sentido estimular autonomia e independência torna-se uma questão de saúde e segurança.


3- Em que idades nos devemos preocupar em introduzir a autonomia?

Desde muito pequenas as crianças podem ser estimuladas a terem autonomia, a partir dos 2 anos de idade os pais devem favorecer esses quesitos no ambiente familiar, como por exemplo, deixando brinquedos no alcance da criança, para que a mesma retire e os guarde, oferecendo frutas e legumes semi- descascados para que a própria criança prepare o seu alimento, organizando a rotina da casa para que a criança tente tirar e colocar a própria roupa nos momentos de troca.

4- Como funciona o processo de aquisição de habilidades psicomotoras?

O desenvolvimento neuromotor acontece num sistema dinâmico, o qual tem interfaces hereditárias, maturacionais e ambientais. Nesse sentido, a aquisição de habilidades psicomotoras é um processo multifatorial e multidirecional, ou seja, mesmo que haja uma pré disposição genética para as habilidades, a criança precisa de receber estímulos do meio ambiente para que ela aprenda e se desenvolva, do mesmo modo que, para que haja aprendizagem, estruturas cognitivas devem estar suficientemente maduras para as demandas do ambiente. Para adquirir habilidades psicomotoras as crianças precisam de ser expostas a diversas vivências que favoreçam o seu desenvolvimento global.


5- Quais são os fatores psicomotores e qual a importância da aquisição de cada um deles (pode dar exemplos práticos)?


Os elementos psicomotores, segundo Vitor da Fonseca (2004), podem ser classificados como: Tonicidade Muscular, Equilíbrio, Esquema Corporal, Organização Espaço – Temporal, Motricidade Ampla e Motricidade Fina.

Tônus Muscular é uma propriedade física do músculo que gera tensão entre as fibras musculares, essa tensão é importante para que a nossa musculatura resista a movimentos e principalmente à gravidade, ou seja, é o tônus que nos faz manter a postura bípede e ter controlo de todos os movimentos do corpo. O tônus é importante nos primeiros meses de vida, é devido à tensão muscular de repouso que o bebé consegue sustentar o pescoço, em seguida, sustentar o tronco ao sentar-se e gatinhar; e ficar de pé para andar. A criança que tem o tônus rebaixado tem menos controlo sobre os seus movimentos, demora a alcançar marcos motores importantes e cansa-se com mais facilidade quando exposta a atividades que exigem muita energia.

O Equilíbrio é o principal mecanismo de ajuste postural, na infância ele manisfesta-se nas primeiras tentativas do bebé para manter-se de pé, na escola o equilíbrio é importante no processo de alfabetização, pois movimentos de cabeça causam desajuste postural, principalmente no momento de cópia e de leitura, além de ser essencial para a integridade física da criança, evitando quedas e impactos com objetos dispostos no ambiente.

A capacidade de conhecer, controlar e selecionar movimentos de acordo com a demanda, denomina-se Esquema Corporal. Esse elemento influencia diretamente a nossa capacidade de resolução de problemas, o esquema corporal favorece a autonomia e independência da criança, tendo em vista, que ela decidirá por si só, por meio do Esquema Corporal, qual é o melhor padrão de movimento para realizar tal tarefa, sem precisar da ajuda de um adulto. Entender como o corpo funciona é importante para estimular auto-cuidado e senso de perigo.

A organização espaço-temporal tem muitos aspetos que influenciam a forma como enxergamos o mundo. A primeira referência de espaço que temos é o nosso corpo, portanto, é do nosso corpo que vem as primeiras noções de dimensão, volume, quantidade, lateralidade, profundidade, e diversos outros conceitos matemáticos. Localização geográfica, noção de tempo e distância, perceção visual, escrita e leitura, só são possíveis quando a organização espaço temporal está bem estimulada.

A motricidade ampla é a capacidade de controlar grandes grupos musculares, como os músculos do tronco, das costas e das pernas. Esse elemento determina as habilidades motoras de locomoção, manipulação e estabilização. Ter controlo sobre grupos musculares de grande proporção é pré-requisito para controlar movimentos que exigem destreza, como por exemplo, a criança só conseguirá escrever ou desenhar, se a mesma conseguir controlar o tronco quando estiver sentada na mesa escolar. Ainda, a criança só conseguirá pentear o próprio cabelo, se a musculatura das costas estiver forte o suficiente para controlar o movimento dos braços acima da cabeça.

A motricidade fina é a principal preocupação das famílias e da escola, tendo em vista que a capacidade de controlar pequenos músculos é requisito para aprendizagem de habilidades grafomotora. No entanto, a importância do desenvolvimento da praxia fina vai além das competências académicas. Habilidades motoras de manipulação são necessárias para que a criança tenha autonomia durante a alimentação e higiene pessoal; outro fator importante é dar independência na locomoção da criança pela casa, facilitando manipulação de chaves, trancas e fechaduras.

6- Qual a importância da psicomotricidade no desenvolvimento infantil?

A psicomotricidade é uma ciência que estuda a relação do indivíduo com o próprio corpo e o mundo, considerando aspetos cognitivos, emocionais, sociais e motores. Nesse sentido, é na infância que a criança constrói sua relação com o mundo através do seu corpo.

O desenvolvimento infantil é extremamente vulnerável a fatores ambientais, sejam esses positivos ou negativos, sendo assim, algumas crianças precisam de mais estímulos do que outras, para que o seu desenvolvimento aconteça na média padrão. A psicomotricidade é um instrumento metodológico que sistematiza os estímulos, de modo a favorecer capacidades neuromotoras na criança, identificando possíveis atrasos e potencializando habilidades necessárias para o dia a dia da criança.

Brincar é um comportamento social no qual a criança aprende sobre a sua realidade, logo, a psicomotricidade estimula o desenvolvimento infantil de forma lúdica, dando funcionalidade à brincadeira, fazendo com que a criança conheça o seu corpo, e o use da melhor forma possível diante das demandas diárias.


7- Como é que os elementos psicomotores são refletidos posteriormente na vida adulta?

O olhar multidiciplinar para a estimulação infantil, reflete-se na preocupação das instituições educacionais e familar em formar adultos seguros, autonómos e independentes, entretanto, muitos adultos sofrem com algumas dificuldades, por falhas no Desenvolvimento Motor. Dificuldades em criar e manter-se numa rotina, podem ser explicadas por falhas na organização espaço –temporal, desajuste na motricidade ampla, equilíbrio e esquema corporal podem afetar drasticamente a vida social do adulto; a falta de habilidades motoras fazem com que o adulto evite eventos sociais como festas e danceterias, tenha dificuldades ou sinta vergonha de praticar desportos coletivos e praticar exercícios físicos. Não podemos deixar de citar, que nesses casos o adulto pode ter um histórico de baixo rendimento escolar e consequentemente apresentar dificuldades em manter-se em empregos formais.

8- Que atividades psicomotoras podem ser feitas em casa para promover a autonomia?

Existem muitas estratégias para que a criança tenha mais autonomia dentro de casa, como por exemplo, deixar objetos de primeira necessidade ao alcance da criança, na hora da alimentação deixar que a criança prepare seu lanche ou que pelo menos ela veja o “ passo a passo”, dar autonomia para que a criança escolha e tente vestir a sua própria roupa e oferecer talheres e copos compatíveis com o tamanho da criança para que ela coma sozinha.

Outra estratégia importante é fazer com que a criança se sinta útil na rotina da casa, peça ajuda nos serviços domésticos, como por exemplo, retirar ou colocar as roupas lavadas do estendal ( podemos estimular aqui movimentos de pinça), escolher feijão (perceção visual), guardar a própria roupa (organização espacial), pedi-la para desenhar tudo o que ela fez durante o dia (organização temporal) e deixá-la mudar os móveis do quarto dela de lugar (flexibilidade cognitiva).

Entender que a criança demora para comer, vestir-se, mover-se; compreender que ela vai-se sujar, o ambiente é essencial para favorecer-mos a autonomia. Fazer as tarefas por ela, para que a casa se mantenha limpa e organizada, ou para que o adulto ganhe tempo, não favorece em nada o desenvolvimento infantil.


9- Qual é o seu maior conselho para os pais?

A rotina dupla e até tripla de muitas famílias fazem com que cada minuto do dia com os seus filhos sejam curtos, e por isso fazemos muito pelos nossos filhos na tentativa de otimizar o tempo. Mas isso não é correto! A infância é a fase em que o indivíduo mais aprende, devido à capacidade plástica do cérebro, à medida que ganhamos em idade, perdemos em neuroplasticidade. Noutras palavras, a infância é o momento que temos que ensinar tudo que for possível para os pequenos, pelo simples fato de que é mais fácil aprender. No início será trabalhoso, mas tenha a certeza que lidar com um adolescente, um jovem e um adulto dependente e pouco autónomo será muito pior. Organize a sua rotina para favorecer o desenvolvimento do seu filho.

10- Atualmente à uma pressão muito grande para que as crianças escrevam muito cedo. Pode dar a sua opinião sobre este assunto? Com as demandas do mercado de trabalho cada vez mais exigentes, as instituições educacionais têm voltado o seu olhar para a Educação Infantil, tendo em vista que é a fase de ensino base na formação académica. A escola e as famílias enxergam uma lógica equivocada de que, quanto mais cedo a criança for alfabetizada, mais preparada para o sistema educacional ela estará. Volto a repetir que é uma lógica equivocada! Assim como todas as habilidades motoras, a grafomotricidade é uma habilidade que depende da maturação neurológica, noutros termos, não adianta impor a aquisição da escrita para a criança, se o cérebro dela não está preparado para isso. Não precisamos de pensar muito nas consequências que essa questão tem trazido para as crianças, o estresse e ansiedade da criança no ato de escrever é um sinal de que o corpo dela não está preparado. O ato grafomotor é extremamente difícil para uma criança de até 5 anos, que está aprendendo a controlar o próprio corpo; imagina controlar um objeto muito pequeno, que exige alta destreza e controlo de pequenas musculaturas?

Essa hiperestimulação reflete-se na alta procura pelos serviços de psicopedagogia, psicomotricidade clínica e principalmente de psicólogos, na tentativa de solucionar um problema que a própria estrutura de ensino causou.

11- Qual a importância destes elementos psicomotores para posteriormente serem autónomas nas AVD’s? Pode falar de alguns elementos práticos?

Atividades de vida diária são um sinalizador do quanto a criança é independente ou não. Quantos mais ela necessita da ajuda física ou verbal dos pais, pior será para seu desenvolvimento e futuramente para sua vida adulta.

Todos os elementos psicomotores servem de base na aquisição de habilidades necessárias para as AVD’s.


A escovação de dentes e o autocuidado com os cabelos só são possíveis mediante o desenvolvimento da motricidade fina e esquema corporal, assim como o equilíbrio e organização espacial para o banho e higiene pessoal após o uso do banheiro. Quanto mais autónoma a criança é no uso do banheiro, menos vulnerável ela se torna a abusos físicos e sexuais. A organização do ambiente domiciliar e o preparo da alimentação também depende de elementos psicomotores como motricidade ampla, perceção corporal , lateralidade e motricidade fina.


Estimular os elementos psicomotores visando à autonomia e independência infantil é um ato de amor.

Espero que tenham gostado. Foi sem dúvida uma excelente partilha!

Resta-me agradecer à @prof_natoliveira por este momento e por ter aceite este desafio, foi um prazer.

Qualquer dúvida, não hesitem em contactar!

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