Entrevista: Psicomotricidade em Meio Aquático (@natacao_especial)
- Intervir +

- 27 de mai. de 2020
- 9 min de leitura
Como terapeutas, o meio aquático pode ser um grande aliado no desenvolvimento das habilidades dos nossos utentes. A água permite que o paciente tenha a liberdade de realizar movimentos que, fora deste meio lhes são difíceis de concretizar. Há menos forças aplicadas nas articulações e uma promoção do fortalecimento muscular e flexibilidade, entre outros.
Assim, decidi convidar a página do instagram @natacao_especial para falar um pouco sobre a sua experiência como psicomotricista no meio aquático.

1- Porquê ser Psicomotricista? Fale-nos um pouco sobre o seu percurso e como chegou à “Psicomotricidade em meio aquático”.
Sempre me cativou a expressão corporal e as motivações por detrás dessa expressão. A Psicomotricidade surgiu enquanto procurava por cursos que envolvessem Psicologia e Pedagogia. Assim, tirei a Licenciatura e Mestrado em Reabilitação Psicomotora, na Faculdade de Motricidade Humana (FMH-UL) e inerentes a cada grau, realizei 2 estágios curriculares: um a tempo parcial associado às Dificuldades de Aprendizagem e Apoio Psicopedagógico, tendo estado presente numa sala TEACCH; e o outro a tempo inteiro na “Associação Quinta Essência”, onde contactei pela primeira vez com a Psicomotricidade no Meio Aquático – em grupo e para adultos com diversos diagnósticos (Paralisia Cerebral, DID, Trissomia 21, Autismo). Experiência muito enriquecedora, dada a diversidade de contextos em que pude estar presente, e que teve influência na forma como trabalho ainda hoje.
Após finalizar o Mestrado, foi-me dada a oportunidade de trabalhar no contexto do Meio Aquático, num projecto-piloto “Nadar é Fixe” – natação para as creches do concelho (3-6 anos), em parceria com a Câmara Municipal da Lourinhã, em conjunto com 2 Professoras de Natação. O meu papel neste projecto como Técnica Superior de Reabilitação Psicomotora tem sido direccionado para a Adaptação ao Meio Aquático (AMA). A “Natação Especial” surgiu logo após esse início, que tem vindo a crescer aos poucos.
2- Porquê “Natação Especial”?
Encontrar um nome que fosse acessível a todos foi outro desafio. Debati-me bastante com conceitos como “Psicomotricidade”, “Terapia Aquática”, “Hidroterapia”, “Natação” e “Meio Aquático”… E cheguei à conclusão que nenhum dos conceitos conseguiria abarcar por completo aquilo que quero transmitir.
Quando me decidi por “Natação Especial”, o que quero transmitir é que existem inúmeras atividades e modalidades para as populações sem necessidades especiais e que aquilo que faço com os clientes é exclusivo a eles. “Natação” porque o meu objetivo é promover a sua autonomia e funcionalidade dentro de água para uma possível integração em turmas de Natação (sendo essa outra questão que possivelmente irei trabalhar – criação de turmas com crianças com e sem necessidades especiais). “Especial” apenas pelo simples facto de que estas crianças/adultos, para mim, são especiais e irei encará-las com o carinho que precisam, adaptando tudo o que for preciso para que atinjam o seu potencial e que isso, de alguma forma, contribua para a sua autonomia fora do contexto do Meio Aquático.
Gosto de encarar aquilo que faço na "4Natação Especial" como um meio facilitador à aprendizagem da criança/adulto que tenho e não exclusivamente como uma Terapia, que também o é! Daí a dificuldade em encontrar o termo certo para aquilo que quero desenvolver com este projeto.
3- Intervém noutros contextos para além do meio aquático?
Já intervim noutros contextos, no meu primeiro ano de trabalho, de forma a preencher o horário, sendo o mais relevante a Psicomotricidade no contexto de creche/jardim-de-infância. Após o primeiro ano, decidi dedicar-me por completo ao Meio Aquático, abdicando de outros contextos e independentemente de ter horário completo ou não.
4- Em que populações intervém? Trabalha com qualquer idade e patologia?
A Natação Especial foi idealizada para qualquer pessoa, criança ou adulto, que precisasse de Terapia num contexto diferente do que já se conhece, independentemente da patologia, em grupo ou individualmente. As pessoas que mais me têm procurado são, maioritariamente, pais/familiares de crianças diagnosticas com Autismo e de adultos com DID e/ou PC. Dadas as condições atuais da piscina onde a Natação Especial se encontra de momento, patologias com graus mais elevados a nível motor não é possível realizar intervenção.
Sendo mais especifica, em relação às idades tenho tido clientes dos 3 anos aos 50 anos.
5- Quais são as maiores dificuldades que encontra na intervenção aquática?
Não as chamaria de dificuldades, mas sim aprendizagens enquanto Terapeuta.
As maiores aprendizagens que tenho feito têm sido na forma como avalio as competências das crianças/adultos, em função das necessidades verbalizadas pelos familiares, onde muitos não conseguem clarificar objectivamente aquilo que procuram com a Terapia. Outra aprendizagem tem sido na evolução das competências dos clientes, porque existem efectivamente resultados e o foco nos objectivos muda em função disso. A questão não se centra nos objectivos a trabalhar (porque aí eu prefiro acreditar que o meu cliente vai conseguir atingir o máximo do seu potencial), mas sim “quando” se deve começar a iniciá-los ou, em alguns casos, “como”.
6- Quais são as principais competências e características que um psicomotricista deve ter para trabalhar na água?
Em termos académicos, estar consciente dos marcos do desenvolvimento da criança e, igualmente, do adulto. Em relação às patologias saber igualmente as linhas gerais que as caracterizam, mas não se focar exclusivamente nelas. Ter uma visão da pessoa que nos chega para lá da patologia é quase o ponto base que considero de extrema importância. São importantes também conhecimentos acerca do próprio Meio Aquático e de como é feito o desenvolvimento de adaptação ao meio, de forma a adaptar as características do cliente àquilo que é possível realizar-se com ele, na fase de desenvolvimento em que se encontra.
Em termos de características individuais, estar aberto a novas formas de encarar a intervenção. Nenhum cliente é igual ao outro e ter essa flexibilidade de pensamento irá influenciar a forma como nos relacionamos com ele, não estando apegados a uma estrutura rígida de intervenção. Talvez por trabalhar com Autismo, a minha intervenção tem sido, essencialmente, focada na relação.
7- Que formações realizou na área da intervenção aquática?
Como tenho constatado, formações para a intervenção aquática existem muito poucas em Portugal… E por isso, o meu percurso nesta área tem sido o de complementaridade de áreas, ou seja, tenho realizado formações tanto de Terapia (sem a componente de Meio Aquático), como de Educação/Natação (sem a componente da Psicomotricidade/Terapia). Com base nas necessidades que vou sentindo vou conciliando conhecimentos dessas duas áreas.
E na procura de mais (e melhores) conhecimentos estou a concluir a Pós-Graduação de Actividades Aquáticas/ Curso de Treinador de Natação – Grau I, pela MANZ e o Curso de “Safer in Water”, direccionado para a autonomia/funcionalidade e segurança de uma criança dentro de água, onde a componente lúdica é a linha condutora.
8- Como é que decorrem as primeiras sessões de um utente que nunca teve contacto com a água? É feito algum tipo de adaptação ao meio antes de começar a usar materiais e atividades?
Há sempre uma primeira reunião com os pais/familiares para conhecer o historial da criança tanto ao nível do seu desenvolvimento, como do seu contacto com a água. Geralmente, chegam-me clientes que já adoram água, mas que não estão acostumados a ver água ou a estar dentro de água nas dimensões que uma piscina possui. Gostar de água é um dos pontos favoráveis a uma posterior intervenção, mas é sempre uma novidade a(s) primeira(s) sessão(ões).
Existem sim alguns procedimentos a realizar nessa fase de um primeiro contacto, sendo que as primeiras sessões são muito baseadas na Observação e na Construção de Confiança. Dou a possibilidade dos familiares se encontrarem próximos, sendo essa outra questão “Ter ou não ter a presença dos familiares nas sessões?”.
9- É importante ter noções de adaptação ao meio aquático e técnica de nado para realizar este tipo de intervenção?
É importante sim observar primeiro o que o cliente consegue fazer, se for um adulto. Se for uma criança, eu encaro sempre como se a adaptação ao meio não estivesse feita. Ter noções de AMA é fundamental! Em relação às técnicas de nado, depende da fase em que o cliente se encontre ou da patologia. Tenho crianças com Autismo em que a AMA já se encontra mais que adquirida e que as técnicas de nado começam a fazer sentido. Nos adultos, com PC e DID as técnicas de nado têm ajudado a perceber a “mecânica” dos movimentos dentro de água.
10- Que testes/escalas utiliza num primeiro contacto com o utente?
Dada a dificuldade em encontrar um teste/escala direccionado para o Meio Aquático, tenho um teste feito por mim para cada problemática e faixa etária, onde avalio características motoras, cognitivas, comportamentais, relacionais e de natação.
11- Qual a importância/benefícios de realizar terapia em meio aquático?
A principal: liberdade de expressão! De qualquer tipo de expressão. Identifico-me com intervenções mais relacionais que instrumentais. O Meio Aquático é um dos poucos contextos em que o cliente pode sentir, agir e reagir por si mesmo e de forma autónoma. A água por si só fornece essa componente sensorial que os ajuda nessa expressão. A Terapia no Meio Aquático potencia a relação do cliente com o terapeuta a um nível que, para mim, dificilmente o conseguiria fora de água com tal rapidez, eficácia e solidez.
12- Com a situação do Covid-19, tem feito algum tipo de acompanhamento aos seus utentes? Que cuidados terá de ter ao retomar a atividade?
Nesta situação em que nos encontramos, tenho apenas acompanhado os pais de forma pontual, encontrando-me disponível para qualquer sugestão que necessitem.
Na retoma à actividade… será difícil manter restrições, para não dizer impossível, no contacto físico. A Terapia no Meio Aquático é com base no corpo e na sua expressão e retirar o contacto físico e proximidade é retirar a linha condutora da intervenção…
As piscinas com cloro, se mantiverem as percentagens nos níveis recomendados são encaradas como seguras, visto que o cloro é um desinfectante. O problema será a forma como os clientes se poderão comportar fora de água, nos balneários e corredores. A retoma da actividade irá depender em muito da abertura e vontade dos pais para tal e da abertura das creches, visto que não se justifica manter uma piscina aberta sem crianças…
Caso haja um regresso em que tenha que haver um cuidado maior ao nível da higiene, limpeza e desinfecção dos materiais usados e não usados nas sessões deverá ser uma constante.
13- É possível as crianças levarem atividades para casa de forma a continuarem o “tratamento” (por exemplo na banheira)?
Apenas nas fases iniciais, onde, a meu ver, a adaptação ao Meio Aquático ainda nem se iniciou… Em bebés ou crianças pequenas, existem actividades para tal. Retirando isso, actividades com água não substituem a intervenção, nem as características do Meio Aquático.
14- Pela sua experiência, quais são os materiais com maior durabilidade para utilizar na água?
Todos os materiais feitos à base de plástico mais rijo são os que se mantêm por mais tempo. A única desvantagem que tenho encontrado em plásticos rijos coloridos é que com o tempo acabam por perder a cor… Se uma das utilidades estiver associada às cores, acaba por não durar tanto.
Materiais adaptados de esparguetes ou pranchas também são dos mais resistentes. Materiais de silicone/borracha também são muito usados. Também utilizo muito materiais plastificados para imagens/figuras, contudo são os que menos duram apesar de práticos e rápidos a construir.
Tenho tido alguma dificuldade em encontrar ideias/soluções para materiais submersos, com peso e que afundem, e as soluções possíveis que tenho encontrado centram-se em ventosas (de plástico/silicone) e pequenos chumbinhos.
15- Que cursos/formações/workshops sugere para ter noções básicas da adaptação ao meio aquático?
Pequenas formações/workshops associados à AMA podem procurar em “AquaTraining Portugal”, onde tem várias formações direccionadas a diferentes tipos níveis (bebés, crianças…). Em Congressos também se podem encontram este tipo de conhecimentos “CIAA – Congresso Internacional de Actividades Aquáticas”. Como referi anteriormente, o curso “Safer In Water” é um dos cursos que poderá abrir a mentalidade do formando, onde se conjuga a segurança no Meio Aquático com a Criatividade, o lúdico. Seguir pessoas/profissionais da área, quer da Terapia, quer da Natação, poderá ser uma mais-valia, visto que poderão sempre criar formações a título individual. Duas das referências que tenho em Portugal são a Drª Ana Rita Matias (TSEER) e a Drª Ana Isabel Ferreira (Terapeuta Ocupacional). A entidade formadora MANZ tem igualmente cursos relacionados com a água (Hidroterapia, Natação Infantil).
16- Que questões de segurança aborda com os seus utentes (por exemplo: não correr no piso ,...)?
Muitos dos clientes que tenho não compreendem por completo algumas instruções e uma forma de contornar isso é a criação de rotinas. Um ritual de entrada na piscina: definir um sítio onde a criança/adulto pode tirar os chinelos e dirigir-se para a berma/escadas da piscina para iniciar a aula. Até criar essa rotina com crianças mais agitadas é definitivamente um desafio!
Já tive crianças a sair da piscina com uma agilidade e rapidez que não pensava ser possível e a correr pela piscina. Os motivos são sempre muito subjectivos, às vezes é algo que os chamou a atenção. Formas de contornar isso? É organizar o espaço dentro da piscina de forma a dar-nos tempo suficiente para reagir a este tipo de comportamentos, utilizando a água como “barreira” a essa manifestação de comportamentos. Crianças com pouco à-vontade na água irão sempre precisar que sejamos nós a mediar o seu movimento na água e isso pode ser “usado” nestas situações.
Para crianças/adultos que consigam compreender instruções curtas, verbalizar os pontos seguros da piscina (terapeuta, berma/parede, escadas e corda) durante o decorrer da sessão tem-se mostrado eficaz.
17- Alguma sugestão para quem queira iniciar um projeto de “Psicomotricidade em meio aquático” na sua cidade?
Avaliar bem que piscinas existem na região e a sua disponibilidade (física e de horário) para receber um projecto destes. Clarificar bem o que é isto de “Psicomotricidade no Meio Aquático”, podendo haver muita confusão com outro tipo de Terapias. Que populações quer abranger e de que forma poderá fazer publicidade. A relação do terapeuta com a entidade que disponibiliza a piscina também é importante. Que materiais iniciais se pode usar. Que tipo de intervenção se identifica. E as características do tanque (com pé, sem pé)…
Muito obrigada à @natacao_especial por ter participado nesta entrevista e pelo entusiasmo que mostrou a partilhar um pouco do que faz. Foi um excelente momento de partilha e desejamos votos de felicidade no seu futuro pessoal e profissional !
Agradeço também a todos os que enviaram questões. Espero que esta entrevista vos tenha sido útil para conhecer um pouco deste contexto!
Caso tenham alguma dúvida ou questão, podem contactar a nossa página ou enviar mensagem diretamente à @natacao_especial (basta clicarem no nome da página para abrir o link).
Intervir +






Comentários