Entrevista- Psicomotricista Raquel Santos
- Intervir +

- 24 de jan. de 2021
- 16 min de leitura
A Raquel é Psicomotricista e uns aninhos atrás seguiu a vertente do Desporto Adaptado. Aí, apaixonou-se pelo Goalball (este tema dá para uma entrevista-parte 2 eheh) e, desde então, tem trabalhado com deficiência visual. Inclusive, hoje em dia trabalha como psicomotricista nesta mesma área.

1. Porquê ser Psicomotricista? Fale-nos um pouco sobre o seu percurso e como chegou onde está.
A opção do curso surgiu entre várias hipóteses no fim do ensino secundário e a que acabei por ficar colocada. As minhas opções não variavam muito, todas elas com foco na intervenção terapêutica, na relação/ interação com os outros, no desenvolvimento da autonomia especificamente com as populações com necessidades especiais.
Lembro-me sempre onde comecei. Entre as atividades livres escolares e de voluntariado que experienciei durante a infância e adolescência, houve uma visita a um centro de deficientes profundos com a turma – o primeiro contacto - tinha eu uns 12 anos. Nesta visita abracei e comuniquei, sem medos, sem vergonhas, apenas com um coração cheio de vontade de conhecer a diferença. Lembro-me da surpresa do corpo docente e dos meus amigos que, apesar da imaturidade da nossa geração, compreenderam bem, assim como eu, que eu tinha um dom.
Obviamente no 1ºano de curso, o entendimento das funções daquilo que eu queria estudar começaram a aclarar-se. Havia muito mais para fazer do que aquilo que eu imaginava possível. Havia muita reflexão, estudo, tempo fornecido para se trabalhar a independência, o bem-estar, a qualidade de vida das pessoas (crianças, jovens, adultos e idosos) com alguma capacidade comprometida.
2. Qual é a diferença entre deficiência Visual, cegueira adquirida ou baixa visão?
A deficiência visual (DV) é uma condição da visão (capacidade visual) provocada por doenças da visão (eg. glaucoma, descolamento da Retina etc.), e incluída nas deficiências de natureza sensorial classificadas pela CIF. “Pessoa com deficiência visual” é a expressão mais aceite atualmente, em detrimento da palavra “invisual” ou “invisuais”.
A população com DV refere-se e inclui as pessoas com baixa visão e as pessoas com cegueira. A população de pessoas com baixa visão – visão parcial – é muito maior do que a população de pessoas totalmente cegas. De acordo com a CID – 10 existem quatro níveis de função visual:
1. Visão normal
2. Deficiência visual moderada
3. Deficiência visual grave
4. Cegueira.
A deficiência visual moderada e deficiência visual grave são agrupadas sob o termo “baixa visão”.
De uma forma simples as pessoas com cegueira têm um campo visual muito limitado (entre os 0 e 2 graus) e uma acuidade visual também baixa ou nula (sem perceção de luz até um mínimo de perceção).
As pessoas com baixa visão são todas aquelas com características de acuidade e campo visual menos limitantes que a cegueira, mas que a sua correção com lentes/ óculos não é possível ou não se equipara a uma visão normal.
A DV (seja cegueira ou baixa visão) pode ser considerada congénita – que se originou antes ou no nascimento - ou adquirida – que se manifesta em etapas posteriores ao nascimento.
3. Intervém noutro tipo de populações?
Não.
4. Considera Portugal um país com as devidas adaptações para pessoas com deficiência visual? Em caso negativo, que adaptações poderiam ser feitas?

Prefiro falar num “país acessível” em vez de um “país adaptado”, ainda que a adaptação do que já existe seja necessária, o nosso objetivo deve estar mais à frente, numa construção de base acessível. Muitas cidades portuguesas já abrigam as acessibilidades mais urgentes como são a identificação de passadeiras com piso tátil, pisos rebaixados, sinais sonoros, acessibilidade nos transportes públicos – quer através de tecnologia ou política de ação/ formação dos condutores em caso de clientes com DV -, caixas de multibanco com entrada para fones, braille funcional nos serviços básicos – máquinas, elevadores, portas etc.
No que confere à acessibilidade em supermercados ou outros estabelecimentos privados, os procedimentos passam pelo exercício dos departamentos de apoio ao cliente, onde funcionários são ou devem ser formados para o apoio a um cliente com DV – o senso comum e consciência social são sempre promotores básicos na interação com a DV.
Ainda assim, é necessário que cada cidadão esteja atento na sua zona de habitação, aos espaços públicos, exteriores ou interiores, e assim identifique eventuais problemas que uma pessoa com DV passaria. É exemplo casos de passeios para peões com obstáculos não visíveis/ esperados a estas pessoas, como são o caso de arbustos/ árvores que exigem manutenção com alguma periodicidade das autarquias. Denunciar estas questões não deve ser uma “chatice” e sim um hábito para nos tornarmos todos os dias mais casa para todos.
Assim, o país deve caminhar para uma acessibilidade total e não restrita a algumas cidades. Um país que quando faz o planeamento e ordenamento do território das suas autarquias, já pensa de raiz nas estruturas como importantes para todos e por isso acessíveis a todos.
5. Quais são as maiores dificuldades que encontra a trabalhar com este tipo de população?
As dificuldades encontradas são especificas à situação de cada utente, histórico e situação de vida associada ao momento de perda da visão. Como refere Renata Salvador, técnica especialista na reabilitação de cegos em Portugal, são múltiplas perdas que acontecem e não só a da visão. Por vezes é também a perda do companheiro, da família, dos amigos, do trabalho, das rotinas, dos momentos de lazer. Muitas vezes as pessoas que rodeiam alguém que perde a visão não se conseguem encontrar, ajustar à nova vida desta. É duro e um processo de luto que pode influenciar em tudo a reabilitação para a autonomia. Posso assim dizer que a primeira grande dificuldade que encontro é a pessoa e o seu contexto. O entendimento e o trabalho da relação destes dois.
Em termos mais técnicos, encontra-se a dificuldade da linguagem. Deve ser ela uma linguagem muito descritiva e pormenorizada, muito objetiva e clara. A conjugação destas valências e coordenação com o próprio contexto do utente – do seu nível de linguagem e compreensão – é um desafio grande. A compreensão verbal com o auxílio do sentido auditivo tem de tomar o lugar dos 70% de estímulos visuais no qual uma pessoa normovisual faz habitualmente o processamento de informação.
6. Quais são as principais competências e características que um psicomotricista deve ter para trabalhar nesta população?

Efetuar a avaliação e diagnóstico do perfil e desenvolvimento psicomotor será sempre a competência mais importante de um psicomotricista, seja com a população com DV ou outra, e que nos diferencia e caracteriza relativamente a outros técnicos na nossa equipa multidisciplinar. A nossa visão sobre o perfil psicomotor de uma pessoa com DV define aspetos importantes à compreensão e trabalho de reabilitação da mesma. São estes a interpretação das estruturas do equilíbrio, estruturação espacial e temporal, noção do corpo e coordenação motora. Uma pessoa que perdeu a visão terá de reestruturar muitas destas funções, pois a capacidade visual já não será a maior responsável pela recolha de informação do ambiente envolvente.
Prescrever, planear, avaliar, implementar e reavaliar os programas de psicomotricidade, numa conjugação com as características de criatividade e adaptabilidade do psicomotricista. Reinventar exercícios, métodos, faz parte do dia-a-dia do técnico que trabalha com esta população. Nem sempre a sessão pensada vai ter sucesso. É preciso trabalharmos a nossa capacidade de ajustar a todo o momento.
7. Que formações/cursos/workshops existem nesta área? Sugere algum?
Existem várias áreas de formação/ especialização que nos ajudam a trabalhar de forma mais desafiadora com esta população. No entanto estas formações nem sempre estão disponíveis - esta especialização requer o perfil autodidata do profissional e ainda depende da necessidade decorrente da sua situação profissional. A minha situação profissional exigiu que fosse aprender, ler, observar os colegas de trabalho e fazer uma formação direta em regime de enquadramento às funções no meu local de trabalho.
Como área fundamental de formação, importa anunciar a Orientação e Mobilidade, em que o profissional obtém competências técnicas para instruir estratégias de acessibilidade e OM à pessoa com DV. Segundo a ACAPO não existem muito mais de 20 profissionais especializados que realizam estas funções, metade trabalham na própria associação – espalhados pelas delegações. Estas formações, que podem ser disponibilizadas por entidades como a ACAPO, Instituições Académicas ou outras associações como na lista abaixo, oferecem a técnicos superiores estratégias para saber como tirar proveito da informação disponível através dos outros sentidos e como criar um mapa mental dos locais em que a pessoa reside, estuda, trabalha etc.
Para além da Orientação e Mobilidade, a formação na área dos desportos para pessoas com DV também é muito desafiadora. Muitas das competências que são necessárias para evoluir desportivamente enquadram as competências, pré-requisitos para uma melhor Orientação e Mobilidade. Um psicomotricista que consiga trabalhar certas competências na pessoa co DV em vertentes diferentes de intervenção, será certamente um técnico mais preparado.
Existe ainda possibilidade de uma apropriação da comunicação e das TIC na DV, como o conhecimento do Braille ou como funcionam os leitores de ecrã JAWS ou NVDA.
As associações na lista abaixo fazem um trabalho específico de formação/ contacto com as pessoas com deficiência visual. No entanto são estas que podem denunciar as ofertas no país sobre formação na área. Seguir e estar atento às atividades destas é importante se estás interessado em te especializares.
ACAPO – Associação dos Cegos e Amblíopes de Portugal
APEDV - Associação Promotora de Emprego de Deficientes Visuais
Fundação Raquel e Martin Sain
AAICA - Associação de Apoio e Informação a Cegos e Amblíopes
Escola de Cães-Guia para Cegos - Associação Beira Aguieira de Apoio ao Deficiente Visual
Associação Promotora do Ensino dos Cegos
ANNDVIS - Associação Nacional de Desporto para Deficientes Visuais
8. Utiliza algum tipo de escalas com os seus utentes? Quais?
No local de trabalho possuímos escalas próprias, que são exclusivas à nossa organização. Não há muitas escalas conhecidas e adaptadas para a população portuguesa com DV. Existe uma tentativa de adaptação da escala de equilíbrio de Berg, que parece concluir que a pontuação final da competência do equilíbrio não é efetiva e taxativa de forma segura sobre a mesma competência na pessoa com DV avaliada. Fora de Portugal existem algumas escalas de avaliação das habilidades motoras, mas apenas para crianças com DV.
As escalas que usamos na Atividade Motora e Orientação e Mobilidade são utilizadas apenas como referencial, pois existem tarefas de desempenho que não são significativas para o dia-a-dia daquela pessoa. Incluem tópicos que vão desde pré-requisitos para a orientação e mobilidade, fatores psicomotores, sentidos remanescentes e funções cognitivas e executivas.
É urgente este trabalho de validação de escalas de avaliação e desempenho para a população portuguesa, mas é mais urgente a capacitação de técnicos na intervenção com a população. As escalas e métodos de avaliação virão por acréscimo.
9. Quais são os seus principais objetivos quando trabalha com este tipo de população?
10. Poderia dar alguns exemplos de atividades que realiza?
Vou responder a estas duas questões na mesma composição.
O objetivo geral no trabalho de Orientação e Mobilidade é desenvolver competências que permitam à pessoa com DV um maior grau de independência e segurança nas deslocações quer em ambientes internos ou externos.
Assim, são exemplos de atividades a proporcionar para o cumprimento deste objetivo, a utilização das técnicas de proteção e de guia, atividades de identificação da lateralidade em si e nos outros/ objetos, tarefas de estimulação dos sentidos remanescentes, a localização de pontos de referência, em espaços interiores e exteriores, a abordagem e utilização das técnicas de bengala, a aprendizagem e utilização de transportes públicos e a realização de percursos com independência.
O objetivo geral das sessões de Atividade Motora/ Psicomotricidade é proporcionar através dos diferentes movimentos corporais um melhor conhecimento para o indivíduo do seu corpo e da sua deslocação no espaço. Promover a melhoria do desempenho motor da pessoa com DV no seu dia-a-dia, através do desenvolvimento de conceitos específicos - psicosociais, psicomotores e cognitivos -, para além de promover uma maior capacidade de integração social na comunidade, proporcionando-se um melhor bem-estar e realização pessoal.
As atividades devem ser promotoras da autoconfiança e da auto-estima. Devem consistir no desenvolvimento das funções do equilíbrio, que estão disfuncionais com a perda do estímulo visual, da noção corporal, principalmente da consciência do espaço que o corpo ocupa do ambiente e tamanhos dos segmentos, estruturação espácio-temporal, no desenvolvimento dos mapas mentais e orientação no espaço, o treino e/ou reeducação postural, tónus muscular, a utilização de exercícios de coordenação motora (dos dois membros em simultâneo – já que será necessário para a utilização da bengala) e a discriminação tátil. Neste contexto da Atividade Motora, é possível fazer ainda simulações ou adaptações de desportos para pessoas com DV.
11. Que tipo de trabalho profissional é aconselhável um deficiente visual fazer?
Não existe, não pode existir, uma limitação a certas áreas de formação profissional para uma pessoa que tenha DV. No entanto é certo que, para o exercício das suas funções, terá de haver acessibilidade. Assim não há nenhum trabalho aconselhável, há aquilo que a pessoa anseia profissionalmente para o seu futuro.
Conforme o documento sobre as Normas de Igualdade de Oportunidades Para Pessoas com Deficiência (Nações Unidas, 1994, p.27) “as disposições legislativas em matéria de emprego não devem fazer qualquer discriminação relativamente às pessoas com deficiência. Os Estados devem apoiar ativamente a integração destes sujeitos no mercado normal de trabalho. Oferecer apoio na formação profissional, esquemas de quotas de emprego, reserva de emprego em áreas específicas, empréstimos ou subsídios à instalação de pequenas empresas, contratos de exclusividade ou direitos prioritários de produção, benefícios fiscais, preferência contratual e outras formas de apoio técnico ou financeiro às empresas que contratem trabalhadores com deficiência.”
Do meu contacto com pessoas com DV, jovens/adultos, listo as seguintes formações profissionais ou académicas que se encontram a exercer nos dias de hoje:
-Técnico Administrativo
-Técnico de Call-center/ Telefonista
-Fisioterapeuta/ Técnico de massagem
-Psicólogo nas diversas especializações
-Jurista, Advogado etc
-Sociólogo
-Músico
-TOC
-Atleta Paralímpico/ Desportista
Haverá muito mais pessoas com funções profissionais diferentes.
12. Algumas pessoas são acompanhadas por cão guia e outras não. Qual a razão?

As pessoas com DV, sendo detentoras das técnicas de orientação e mobilidade, podem deslocar-se de diferentes formas:
- Com ajuda de outra pessoa, com técnica de guia;
- Utilizar o seu próprio corpo, com técnica de proteção;
- Com o auxílio de uma bengala branca longa;
- Com apoio de um animal, cão-guia;
- Com o contributo da tecnologia, ajudas eletrónicas.
As pessoas com DV (cegas ou com baixa visão) normalmente estão identificadas com uma bengala ou tem um cão guia, ou, no caso de uma baixa visão muito funcional, pode até não usar nenhum auxiliar de mobilidade. A pessoa com DV usa uma bengala branca ou um cão-guia, quando a própria tem consciência que ao deslocar-se está a colocar-se em risco e que este advém da falta de visão para detetar o espaço que a rodeia e tomar decisões no meio que a circunda, quer no exterior (rua) ou no interior (residência e outros espaços). O uso adequado das técnicas de bengala, habilidades de defesa e de proteção, a utilização de um cão como guia e/ou de guia-humano podem reduzir a probabilidade de risco.
A grande diferença entre uma bengala e um cão-guia é obvia: um cão não é propriamente como uma bengala que se arruma num canto ao chegar a casa. Necessita de comer, ir à rua e sobretudo muitas carícias. Os cães-guias são na realidade animais incrivelmente meigos que necessitam de constante atenção.
É opção da pessoa com DV utilizar um ou outro, sabendo sempre que ambos oferecem possibilidades na mobilidade, mas que o cão-guia exige um pouco mais de tempo disponível.
13. Ao depararmo-nos com uma pessoa invisual, podemos ajudar? De que forma?

O primeiro passo é saber se a pessoa precisa de ajuda para se deslocar. Maioria das pessoas com DV que se deslocam na via pública já estão habituadas a realizar aquele percurso, já conhecem aquele espaço. Mesmo assim, se a resposta à questão “precisa de ajuda?” for afirmativa é importante perceber se ela necessita apenas de alguma indicação sobre um ponto de referência ou se requer técnica de guia para se deslocar até a algum local.
Na primeira situação, sendo apenas necessário uma instrução verbal para orientar a pessoa para o destino pretendido, é importante perceber se a pessoa está orientada e posicionada corretamente face ao sentido que quer tomar. Se tal não acontecer, é importante posicionarmos a pessoa corretamente e dar-lhe indicações. Todas as orientações (esquerda, direita, frente, atrás) devem obedecer à posição de corpo da pessoa cega e não à posição de corpo de quem está a dar as orientações/indicações.
No último caso – utilização da técnica de guia - o mais provável é que a própria procure o nosso braço, mas para facilitarmos esse encontro podemos, com o nosso braço (cotovelo), tocar levemente no braço da pessoa para indicar a nossa posição. É a pessoa cega que segura no nosso braço e não o contrário. É importante que a pessoa cega se sinta segura na deslocação. Ao caminhar, o guia deve ir à frente. A distância que separa o guia da pessoa cega deve ser de meio passo atrás. O guia pode manter o seu braço fletido ou pendurado. É importante olharmos em frente e darmos atenção à velocidade da nossa passada, esta tem de ser confortável aos dois. O guia deve andar sempre do lado do trânsito/ ou zona com mais movimento para proteger a pessoa que está a guiar. Se achar importante, pode ir dando algumas informações pelo caminho. Por último, ao chegar ao local desejado pela pessoa com DV, é importante orientá-la face a um ponto de referência que a própria possa identificar ou que já tenha identificado no início do pedido de ajuda.
14. Acompanha casos em que os pais são invisuais e os filhos não? Que dificuldades existem nesses casos?
Não acompanho. Conheço vários casos de famílias em que o progenitor tem ambos DV e que os filhos são normovisuais.
Um casal com este comprometimento pode planear ou não ter filhos, assim como um casal normovisual. Tenham os dois DV, ou apenas um deles, há sempre desafios que devem ser ultrapassados. Um adulto ou um casal com DV que já convive com a sua condição visual de forma confortável e possui estratégias para seguir a rotina diária de forma normal, está preparado para ter filhos. Vai necessitar do apoio da família, serviços de saúde e de educação para a observação e acompanhamento do desenvolvimento da criança – mas isto também acontece nos casais normovisuais. Além disso, existem uma data de dicas e estratégias para realizar os cuidados do recém-nascido, assim como há estratégias para cozinhar em segurança, realizar as tarefas de higiene pessoal, a limpeza da casa, o cuidado da roupa, etc. Estas estratégias relativas às Atividades de Vida Diária, são aplicadas e ensinadas também por técnicos no serviço de reabilitação onde exerço funções, apesar de considerar que ainda não tenho domínio sobre esta área das AVD’s.
15. Como posso obter mais informação sobre treino de orientação e mobilidade?
Deixo aqui dois livros importantes para leitura didática desta temática, já que nem sempre há formação disponível. Comprometo-me a partilhar com a autora deste blogue sempre que houver oferta de formação. Fiquem atentos.
Dica importante: sejam sempre críticos sobre aquilo que leem. Há mais matéria científica. Cada livro usa formas diferentes de abordagem, para além da diferença de anos de publicação.
Orientação e Mobilidade: Conhecimentos básicos para a inclusão do deficiente visual /Elaboração Edileine Vieira Machado...[et al.] - Brasília: MEC, SEESP, 2003. 167 p
Mobility of Visually Impaired People: Fundamentals and ICT Assistive Technologies/Editores Edwige Pissaloux & Ramiro Velázquez - Cham, Switzerland, 2018. 659 p
16. Quais os impactos que a pandemia provocou nos indivíduos com deficiência visual?
Para todos eles, em regime de processo de reabilitação, em trabalho, em formação escolar ou académica ou mesmo sem atividade atual, esta fase tem sido de grande medo. Deixo um retrato deste medo sobre o relato de João Pedro Fonseca, Psicólogo, cego e também vitima deste vírus na altura em que escreveu.
“A incerteza, o medo, o pânico e a desorientação tomaram conta das nossas vidas.
Este é o relato do João Pedro Fonseca.
Enquanto cego muita da informação sensorial que recebo é através do tato e da audição. Em tempos de pandemia o tato torna-se num grande perigo, devido à enorme frequência de toques em superfícies que podem estar contaminada, nomeadamente para localizar o corrimão da escada, a fechadura da porta, a máquina multibanco ou a entrada e saída de um transporte público ou edifício – receios de quem tem de sair de casa e circular de forma diferente.
Março de 2020 ficará para a história. Um invisível vírus conseguiu mexer no mundo, esvaziar de pessoas os passeios das ruas, fechar lojas e substituir o som do trânsito por um estranho e pesado silêncio.
Deixámos de poder conviver uns com os outros, beijar, abraçar e tocar. Higienizamos as mãos, a pega e a ponteira da bengala sempre com medo.
Quem não vê, como eu, não tem a noção da distância à qual os outros se encontram. Esta situação não depende só de nós. Quando entro num transporte, numa sala de espera ou noutro espaço fechado, fico dependente do bom senso de quem lá está e das indicações para me deslocar para ficar num local mais seguro.
Todos sabemos quão difícil foi o confinamento, mas nós, os cegos, estamos mais desprovidos de conteúdos e atividades.
Fui contaminado com o vírus Covid 19 e agora estou em casa. A minha atividade de psicólogo no Instituto de Oftalmologia Dr. Gama Pinto está suspensa. Acredito que a reação à notícia não terá sido muito diferente de todos os que recebem o mesmo resultado.
As diferenças regressam ao período do confinamento. Contam-se pelos dedos das mãos as distrações à nossa disposição: falo das séries da televisão, dos jogos de telemóvel e computador, de textos importantes, das redes socais, das videochamadas e tantas outras coisas que a maravilha da tecnologia digital disponibiliza e onde o sentido da visão é rei.
Ler um bom livro em braille ou digital, ouvir uma boa música e fazer pequenos exercícios físicos de relaxamento em casa são, agora, as minhas rotinas. Não perdi a interação com quem vivo, claro, cumprindo sempre as regras de segurança.
Mas nem sempre a pessoa cega vive acompanhada. O suporte da família, dos amigos ou dos serviços da comunidade podem ter um papel mais relevante no acesso a bens de consumo, às refeições ou à simples companhia virtual.
Eu utilizo o computador, o telefone, a família, os amigos. Estou doente mas quero manter-me ativo. Por isso, digo a todos os cegos doentes ou em isolamento profilático que comuniquem e circulem em casa com cuidado. Se gostam de cozinhar aproveitem o momento. Libertem-se da barreira e proporcionem a si mesmos bons momentos neste tão difícil em que vivemos.
Acima de tudo, para cegos e não cegos, a ideia é que a situação passará, quem está doente curar-se-á e quem cuida verá num espaço mais ou menos breve o seu ente querido recuperado.
Em três palavras, esperança, resiliência e inteligência são a chave do sucesso.
Atualizado a 24-11-2020”
Aconselho ainda a visualização da reportagem que passou na TVI a 22 de dezembro de 2020: “Como é a vida de um cego?”. Faz a abordagem da rotina das pessoas com DV durante a pandemia.
17- Como é feita a intervenção em idosos (com deficiência visual) onde é observável um declínio cognitivo típico da idade?

A população cega ou com baixa visão que faço intervenção varia dos 16 aos 60s. Obviamente que a população mais jovem terá objetivos no seu plano individual de reabilitação associados à sua independência e mobilidade, formação profissional e pessoal. No entanto, são muitos os casos de pessoas mais velhas que cegam, maioritariamente por complicações de cataratas, glaucoma e ainda a DMI - uma doença da mácula associada à idade. O plano individual de reabilitação destas pessoas é bem diferente e apresenta outras dificuldades na Intervenção, não só porque na maioria tem o seu companheiro, filhos, ou família no geral que se habituou entretanto a fazer as rotinas diárias deste, mas também porque a independência e mobilidade nesta fase/ idade não é conjugada da mesma forma. Assim, faz parte claramente o trabalho das funções cognitivas, a manutenção destas, mas numa previsão de tempo de resposta da reabilitação muito inferior ao plano individual de reabilitação de um jovem/adulto. O local onde trabalho faz reabilitação, não estando alocado qualquer função de centro de dia/atividades. Os utentes farão um programa de reabilitação que pode durar entre 3 a 5 meses. Contando que na população idosa, +60, é feita uma reabilitação essencialmente para a manutenção daquilo que a pessoa fazia antes da DV. Imaginemos por exemplo um senhor que sempre foi tomar o seu café depois do almoço - tornar possível a mobilidade independente com bengala até ao local, sem se colocar em risco é um objetivo.
No que diz respeito a funções cognitivas deve haver uma priorização do que realmente interessa para a pessoa com DV com uma idade avançada. Muitas destas pessoas com +60 anos de idade fazem parte do pequeno grupo de população portuguesa com nível de alfabetização muito pouco desenvolvido. Sabem escrever o seu nome e pouco mais. No contexto de aula de Atividade Motora ou de Orientação e Mobilidade faço o trabalho de funções cognitivas e executivas com atividades concretas e que sejam até palpáveis. Por exemplo com estímulos sonoros que se associam a movimentos/ ou tarefas mais complexas.
Com uma coreografia, em que os passos tem um nome, que eventualmente até seja aproximado à realidade do que estão a fazer. As "tesouras" ou "águia", etc. Nomear tudo é um trabalho com múltiplos objetivos, é a memorização, é a associação, etc. Nesta população, e especialmente nas idades mais avançadas, é muito importante o toque. Porque por vezes o nosso discurso descritivo pode ser exageradamente desenquadrado para eles. Manipular a pessoa não deve ser um problema, no entanto numa primeira intervenção é preciso esclarecer com o utente esta necessidade. Se for possível ainda, o toque deles em nós, na posição da nossa cabeça, do nosso braço, também vai criar uma imagem mental mais definida daquilo que se pretende.
18- É necessário que saibas ler Braille?

Em relação ao Braille, eu sei ler braille com a minha visão, não sei ler com os dedos. Mas é o suficiente para que, em alguma situação na rua, ou identificação de placas informativas num espaço interior saiba corrigir o utente. O Braille é muito fácil de aprender, são conjuntos de caracteres, e para quem tem visão é como se estivéssemos a converter uma frase num código, ou vice versa.
Gostaria de agradecer à Psicomotricista Raquel por aceitar este desafio, foi realmente um momento de partilhas maravilhosas! Desejo o maior sucesso para o futuro. Que continue a ter o dom de intervir de coração cheio! Instagram: @raquelmelas






Comentários