Lateralidade: Quebrando Mitos
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- 8 de mai. de 2020
- 6 min de leitura

Com este post, procurei não só pesquisar a base científica deste tema, mas também procurar a opinião de profissionais de várias áreas.
Para além disso, também quis perceber os dois lados da moeda. Quis compreender as razões que levavam as pessoas a ser educadas desta forma e se existiria alguma razão para além da religião.
Durante milhares de anos, existiram crenças preconceituosas associadas aos canhotos.
Os canhotos eram castigados por escrever com a “mão errada”. Na bíblia, era o lado associado ao pecado e tentação. Diz a Sra. Ana. “Tive uma colega na escola que levava porrada cada vez que usasse a mão esquerda”.
Para além das crenças religiosas, ouvi também testemunhos da Sra. E. como “Na Holanda, não proibiam o uso da esquerda. Antigamente, apenas incentivavam o uso da mão direita com o intuito de não borrar a tinta na folha de papel.”.
Numa conversa com a Sra. L, vítima deste assunto, ela comenta “A justificação que me davam era de que todos os meninos escreviam com a direita e eu seria anormal se fizesse o contrário. Diziam “ficar feio” ”.
Hoje, ainda assisto a muita falta de conhecimento em relação a este assunto. Vejo mães a insistir com filhos para usar a mão direita “porque sim” ou “porque ouvi dizer”.
Vamos então começar pelo princípio: O que é a lateralidade?
A lateralidade refere-se à predominância que um indivíduo possui na utilização, de forma mais eficaz e com maior destreza, de um dos lados do corpo. Tal preferência pode ser vista em três planos: olho, mão e pé.
Para Negrine (1986), tal dominância está relacionada com o processo sensório-motor de um dos hemisférios cerebrais. Isto caracteriza-se pela realização de ações e movimentos com maior destreza, precisão, domínio, rapidez e força, do lado dominante sobre o lado não dominante.
Sabe-se que desde o início da infância a criança pode apresentar preferência pela utilização de um determinado lado do corpo, no entanto os autores Gallahue & Ozmun (2001) e Schafranski (2013), afirmam que a definição da lateralidade não ocorre antes da faixa etária dos 5 aos 6/7 anos de idade.
A noção de lateralidade é um elemento fundamental de relação/orientação com o mundo externo visto que está relacionada com a direcionalidade. Já que esta é orientada pela orientação espacial, noções espaciais como cima-baixo/ anterior-posterior dependem da noção de lateralidade (Giolo, 2008).
Explorar os movimentos do corpo é fundamental na Educação Infantil, pois possibilita as crianças compreenderem o seu corpo em função da lateralidade. Como já foi referido, nesta fase as crianças usam ambas as partes do corpo, no entanto, manifestam sempre preferência por um dos lados. É importante a criança receber estímulos que permitam aprimorar a sua preferência, sem impor o uso determinante de uma das mãos (mão direita, por exemplo).
Mas então quais são as consequências de obrigar um canhoto a escrever com a mão direita?
Pouco a pouco, foi-se mudando um pouco as mentalidades e, hoje sabe-se que um “canhoto contrariado” pode resultar em quadros bastantes mais complexos. Assim, é completamente desaconselhado obrigar uma criança ao uso da mão direita.
A obra “Memórias de Alfabetização” (2007) traz algumas experiências de pessoas canhotas que foram obrigadas a escrever com a outra mão. Os relatos revelam que o desempenho escolar, assim como as habilidades psicomotoras, ficou a desejar. Tudo isso porque os participantes, que concederam entrevista, afirmaram que foram forçadas a estabelecer o domínio destro.
Para além das dificuldades a nível motor em realizar tarefas da vida diária, a criança também pode desenvolver frustrações e traumas. Vai-se sentir esgotada sem razão e será uma criança mais tímida.
A minha colega Filipa é Educadora de Infância e afirma que “As crianças têm que perceber sozinhas qual o seu lado forte para lhes dar uma maior auto confiança na tarefa. Nunca me deparei com uma situação em que alguma educadora fizesse o contrário, tanto em Portugal como aqui na Alemanha”.
Da mesma opinião é a @terapiaocupacional_tocupa “Até aos 4 anos a criança deve definir a sua lateralidade e depois trabalhamos a mão dominante. Não vou forçar a criança a escrever com a direita se é esquerdina.”
Mudar as preferências laterais das crianças implica em desvantagens como dificuldades de distinguir a direita da esquerda, transtornos na escrita, dislexia, entre outros. De uma forma geral, estaríamos a guiar a criança para um caminho de dificuldades de aprendizagem.
Como @beatrizpereirapsicomotricista afirma “Ser canhoto não deve ser um fator de preocupação. É algo tão natural como nós escrevermos com a direita. Logo, é importante a sensibilização e apresentação deste tema como algo natural do desenvolvimento da criança e que não define as suas capacidades ou inteligência”.
Também procurámos saber a opinião de alguém da área da psicologia. A Dra. Dulce deu a sua opinião: “Se a criança tem mais dificuldades a escrever, vai-se cansar mais rapidamente, o que pode despoletar desmotivação escolar, desmotivação para a escrita e realização de trabalhos. Eventualmente leva a dificuldades de aprendizagem e uma baixa auto estima. A criança terá provavelmente a letra menos legível e vai ser constantemente chamada à atenção na escola e pelos pais, para melhorar a sua letra. Vai criar frustração e desatenção… uma bola de neve! Mais tarde poderá ser diagnosticada com disgrafia, perturbação específica da aprendizagem, entre outros”.
De encontro ao que a Dra. Dulce referiu da possibilidade da criança ter uma letra menos legível, a Sra. L também referiu “O meu pai dizia muitas vezes que eu tinha uma letra muito bonita. Desde que fui obrigada a escrever com a direita, fiquei com uma caligrafia mais desleixada”.
O papel da Psicomotricidade
O facto de uma criança ser obrigada a escrever com a sua mão não dominante leva, não só, a todas as consequências de aprendizagem referidas anteriormente mas, também a nível Psicomotor.
É possível observar uma criança com uma pega do lápis avançada (imagem nº4) a regredir para uma pega elementar (imagem nº1), pelo simples facto de mudar de mão.

Isto, naturalmente trará alterações no manuseamento de outros objetos como por exemplo, abrir uma garrafa.
Como já referido anteriormente, é importante explorar o movimento e o corpo na educação infantil. Assim, aproveitamos o testemunho da página @salpicos para desenvolver esta ideia:
“Através de técnicas lúdicas, de diversas vivências com o corpo, a Psicomotricidade poderá ajudar cada criança a otimizar o desenvolvimento da sua aprendizagem da leitura e da escrita e motivá-la para ultrapassar as suas dificuldades, resultando em competências que a poderão ajudar a aprender melhor.
Na terapia psicomotora, com todas as crianças com quem trabalhamos e que utilizam preferencialmente a mão esquerda para o processo de escrita, sugerimos sempre que se respeite a tendência natural de cada criança e sugerimos materiais adaptados, bem como estratégias para implementarem em casa e partilhamos dicas de atividades para desenvolverem com os seus filhos para facilitar todo o processo de aprendizagem nos vários contextos da família. Trabalhamos em equipa com a escola e nesse sentido também ajudamos na orientação de medidas e de estratégias a implementar.
Acreditamos na importância crucial que o corpo em movimento tem no espaço envolvente. Com diversas atividades simples e complexas de expressão corporal, estimularmos e desenvolvemos não só a coordenação motora global, como o equilíbrio, a lateralidade e a organização do corpo no espaço. Todas estas experiências vão ser muito importantes para facilitar o processo de aprendizagem da leitura e da escrita. O nosso corpo precisa de rebolar, saltar em cima de trampolins, trepar paredes de escalada, fazer cambalhotas e pinos, rodopiar arcos (...). Quanto mais experiências corporais tivermos nos nossos primeiros anos de vida, mais fácil será aprendermos a ler e a escrever e seremos fisicamente e emocionalmente mais seguros e confiantes. “
Em forma de conclusão, verificamos que para além das crenças religiosas e do facto de associarem alguém diferente a alguém anormal, existiram também justificações práticas relacionadas com o borrar a tinta no papel.
No entanto, hoje em dia, os estudos científicos vêm refutar as crenças e, a existência de novos materiais permite aos esquerdinos usarem tesouras adaptadas ou canetas que não borram a tinta.
Assim, não se torna justificável continuar a assistir a casos de crianças a contrariar a sua natureza neurológica e anatómica.
Espero que tenham gostado do Post! Alguma dúvida, estarei ao dispor para responder.
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